Aposentados fazem da leitura nova profissão e levam livros a presídios de SP: ‘um livro oferece sonho e o direito de sonhar’

  • 01/11/2026
(Foto: Reprodução)
Aposentados fazem da leitura nova profissão e levam livros a presídios de SP Quando se aposentou, depois de trabalhar por 25 anos como representante comercial e administrar cinco lojas de calçados, Carlos Roberto Girotto, de 67 anos, decidiu que não ficaria parado. Morador de Ribeirão Preto (SP), ele começou a cursar História e passou a mediar leituras com homens presos na Penitenciária da cidade. Em Jardinópolis (SP), a assistente social aposentada e psicanalista Odete Vital, de 72 anos, encontrou nos livros uma forma de enfrentar a depressão e retomar o convívio com outras pessoas depois de passar anos mais isolada. Ela se tornou mediadora voluntária no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) da cidade. Os dois participam do Clube de Leitura no Cárcere, projeto do Observatório do Livro e da Leitura de Ribeirão Preto (SP) realizado em parceria com a Fundação Professor Doutor Manoel Pedro Pimentel (Funap) e a Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp Antes de assumir as turmas, Carlos e Odete concluíram a formação em biblioterapia, obrigatória para todos os mediadores voluntários. A metodologia utiliza a literatura para estimular conversas sobre sentimentos, experiências e escolhas. Para marcar o Dia Nacional do Livro, celebrado em 29 de outubro, o g1 conta como eles retomaram atividades depois da aposentadoria e passaram a usar a leitura para incentivar reflexões entre pessoas privadas de liberdade. “Eu não queria ficar parado. Eu não queria ficar aposentado da vida. Eu só queria me aposentar do trabalho”, afirma Carlos. Carlos Roberto Girotto e Odete Vital encontraram na mediação de leitura uma nova atividade após a aposentadoria Arquivo pessoal/ Observatório do Livro e da Leitura de Ribeirão Preto Segundo o Observatório, o projeto já atendeu mais de 10 mil adultos em 107 clubes organizados em 20 presídios da região de Ribeirão Preto. Somente em 2025, 136 pessoas privadas de liberdade participaram das atividades. Para a diretora de Operações do Observatório, Luciana Paschoalin, a atuação dos voluntários também mostra como os livros podem criar novos projetos de vida depois da aposentadoria. “Eles estarem na ativa, mesmo que seja em um trabalho voluntário, faz com que retomem a vida e encontrem um propósito. São pessoas que podem devolver à sociedade aquilo que aprenderam ao longo da própria trajetória.” Aposentado do trabalho, não da vida Carlos trabalhou como representante comercial, gerente de vendas e empresário. Depois da aposentadoria, formou-se em teatro e tirou o registro profissional de ator, mas ainda procurava uma atividade que o mantivesse ligado aos estudos e a outras pessoas. Foi quando decidiu cursar História. Ele deve concluir a graduação neste ano e já dá aulas voluntárias em um curso pré-vestibular comunitário de Ribeirão Preto. Há dois anos, Carlos começou a participar do Observatório. A primeira visita aconteceu em uma unidade prisional de Araraquara (SP). Ele conta que ficou receoso porque nunca havia entrado em um presídio e tinha uma visão estereotipada do sistema prisional. “Eu fiquei receoso. A gente tem uma visão, um estereótipo muito complicado. Você entra, as grades se abrem, passa e elas se fecham. Mas, na hora em que entra na sala e tem contato com os presos, vê que eles são seres humanos também.” Carlos Roberto Girotto, de camiseta preta, à esquerda, conduz encontro do Clube de Leitura no Cárcere na Penitenciária de Ribeirão Preto (SP) Observatório do Livro e da Leitura de Ribeirão Preto Atualmente, Carlos faz a mediação presencial na Penitenciária de Ribeirão Preto. A turma mais recente tinha 17 homens. Os encontros aconteciam a cada 15 dias, duravam duas horas e acompanhavam a leitura de aproximadamente quatro livros ao longo de uma edição. Carlos conta que as conversas vão além do enredo e levavam os homens a relacionar as histórias às próprias escolhas, à família e à vida que pretendiam construir fora do presídio. Durante a leitura de “O Menino do Pijama Listrado”, por exemplo, participantes contaram que conversaram sobre a obra com os filhos durante as visitas. “Eles falavam: ‘Neste fim de semana, conversei com a minha filha sobre o livro’. Eles têm família, têm uma vida além da prisão. Alguns dizem que querem voltar a estudar, fazer faculdade ou escrever um livro.” Ao g1, Carlos contou que parte dos participantes chega interessada apenas na possibilidade de reduzir a pena, mas passa a se envolver com as histórias ao longo dos encontros. “Alguns chegam desconfiados e dizem que estão ali pelos quatro dias a menos. No final, estão participando, falando do personagem e dizendo o que fariam naquela situação. A mudança acontece de forma muito natural.” No fim do ano passado, um dos homens disse a Carlos que deixaria o sistema prisional no ano seguinte e gostaria de encontrá-lo novamente. “Ele falou: ‘Eu gostaria de encontrar você lá fora e eu trabalhando’. Isso me emocionou.” Carlos Roberto Girotto, de camiseta rosa, à esquerda, conduz encontro do Clube de Leitura no Cárcere na Penitenciária de Ribeirão Preto (SP) Observatório do Livro e da Leitura de Ribeirão Preto Da depressão à mediação de leitura Odete nasceu em Guarulhos (SP), cursou Serviço Social em Ribeirão Preto e, depois da faculdade, mudou-se para a capital paulista para trabalhar. Ela atuou em um serviço estadual de atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade, em unidades de saúde da Prefeitura de São Paulo e na área ambiental. Após se aposentar, mudou-se para Jardinópolis para ficar mais perto da mãe e das irmãs. Odete contou ao g1 que enfrentou depressão e passou anos mais isolada depois de se afastar da rotina profissional. Segundo ela, o excesso de preocupação, o desgaste acumulado durante a carreira e a redução do convívio familiar contribuíram para que permanecesse grande parte do tempo dentro de casa. “Eu comecei a ficar muito em casa. Tinha família, festas de família, mas os mais velhos foram morrendo e ficou muito difícil a gente se encontrar. Quando percebi que estava fora da realidade, fui procurar alguma coisa que pudesse me ajudar.” A aposentada conheceu o Observatório pela internet e se inscreveu no curso de biblioterapia. A formação despertou nela o interesse por retomar uma experiência vivida ainda na faculdade, quando fez o trabalho de conclusão de curso dentro da Penitenciária de Ribeirão Preto. Na época, ainda jovem, ela saiu do local assustada e com uma visão negativa do sistema prisional. Décadas depois, decidiu voltar para tentar compreender aquele ambiente de outra maneira. “Eu vi que precisava estar com gente. Precisava estar em relacionamentos, em sociedade. A formação e o trabalho no clube de leitura me voltaram para a vida real.” Depois do curso, Odete passou a mediar grupos com até 20 homens no CPP de Jardinópolis. No início, conduzia as atividades acompanhada por outros profissionais. Com o tempo, ganhou segurança para realizar os encontros sozinha. “Eu nunca imaginei que estaria dentro de um presídio sozinha, fazendo um trabalho. Para mim, isso foi um ganho imenso. Ressignifiquei aquela experiência que tinha vivido quando era jovem e passei a enxergar as pessoas que estavam ali de outra forma.” Odete Vital durante encontro do Clube de Leitura no Cárcere no Centro de Progressão Penitenciária de Jardinópolis (SP) Observatório do Livro e da Leitura de Ribeirão Preto Segundo ela, os participantes chegavam reservados e nem sempre se sentiam seguros para falar. O trabalho do mediador era criar um ambiente em que cada um pudesse participar no próprio tempo. “Primeiro, deixo os que falam participar. Depois, vou chegando aos que ficam mais quietos, sem exigir. Com o tempo, eles começam a contar o que pensaram, o que sentiram e como aquela história se aproxima da vida deles.” Para Luciana Paschoalin, a formação em biblioterapia é fundamental justamente porque o mediador não está no presídio apenas para entregar um livro ou conferir se a obra foi lida. “Não é só discutir o que o personagem fez ou qual é a moral da história. É entender o que aquela história despertou. A partir do livro, é possível discutir relações, emoções e refletir sobre a vida sem que a pessoa precise começar falando diretamente sobre ela mesma.” Odete diz que também mudou durante esse processo. Além de enfrentar o isolamento, passou a rever a visão que tinha sobre quem está no sistema prisional. “O livro é uma janela. É uma janela onde eles reveem a vida, reencontram o passado e começam a plantar o futuro. Eu vi homens mudarem a postura, participarem mais e mostrarem um lado que, muitas vezes, quem está fora do muro não conhece.” Clube de Leitura no Cárcere promove encontros de mediação literária em unidades prisionais da região de Ribeirão Preto (SP) Observatório do Livro e da Leitura de Ribeirão Preto Como funciona o clube de leitura Os clubes reúnem até 20 pessoas. Segundo o Observatório, as atividades podem acontecer com livros impressos ou tablets preparados para funcionar sem acesso à internet. Todos os mediadores voluntários precisam concluir a formação em biblioterapia antes de assumir uma turma. Além do curso, eles recebem acompanhamento da equipe responsável pelo projeto. Os títulos passam por uma curadoria que considera o perfil dos participantes, a qualidade da obra e os temas que podem ser trabalhados durante as conversas. Cada leitor recebe um exemplar e tem até 30 dias para concluir a leitura. No primeiro encontro, o mediador apresenta o autor, a história e os assuntos que poderão ser discutidos. Depois, retorna à unidade para conduzir a conversa por meio de perguntas preparadas para cada livro. Segundo Luciana, a intenção não é apenas ampliar o hábito da leitura, mas ajudar os participantes a elaborar sentimentos, recuperar vínculos e pensar no futuro. “É mais do que formar leitores. É também formar cidadãos. Dentro do presídio, a leitura pode fazer com que a pessoa reflita sobre a própria vida e volte a se interessar pela escola. Temos relatos de participantes que retomaram os estudos depois de entrar no clube.” Projeto utiliza a leitura para estimular reflexões, recuperar vínculos e incentivar novos projetos de vida entre pessoas privadas de liberdade Observatório do Livro e da Leitura de Ribeirão Preto Leitura pode reduzir a pena Depois da leitura e da mediação, cada participante produz um relatório sobre a obra. O texto é analisado por pareceristas voluntários de acordo com critérios como compreensão e coerência. No caso das pessoas que não sabem ler ou escrever, o projeto utiliza um formato com leitura mediada e relato oral. A resposta é gravada e transcrita para que o participante também possa ter acesso ao benefício previsto na legislação. Após a avaliação, o documento passa por uma comissão dentro da unidade prisional e é encaminhado à Justiça. Cada livro lido e aprovado pode resultar na redução de quatro dias da pena. A decisão final cabe ao Judiciário. Para Carlos, o resultado do trabalho não está apenas nos dias retirados da pena. A leitura também oferece aos participantes a possibilidade de imaginar outros caminhos antes mesmo de deixarem o presídio. Um livro oferece sonho. O direito de sonhar. Naquele momento, a pessoa está fora da cadeia e dentro daquela história Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

FONTE: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2026/11/01/aposentados-fazem-da-leitura-nova-profissao-e-levam-livros-a-presidios-de-sp-um-livro-oferece-sonho-e-o-direito-de-sonhar.ghtml


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