Conheça o compositor do interior de SP que teve músicas gravadas por ícones do sertanejo e dá nome a teatro
28/03/2026
(Foto: Reprodução) O falecido compositor de música caipira João Pacífico
Arquivo/Secretaria de Cultura de Cordeirópolis
Quem chega a Cordeirópolis (SP) pode se deparar com um nome que também aparece na assinatura de músicas gravadas por ícones do sertanejo.
Nascido no município em 5 de agosto de 1909, o compositor caipira João Pacífico morreu em 30 de dezembro de 1998, mas continua presente no cotidiano da cidade — que recebe o Limeira Rodeo Music até este sábado (28) — e em shows realizados Brasil afora.
Ele escreveu músicas como “Chico Mulato”, “Cabocla Tereza”, “Pingo d’Água”, que acumulam 30, 40 e 60 gravações, respectivamente.
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Os números constam no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, iniciado em 1995 pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e mantido pelo Instituto Cultural Cravo Albin (ICCA).
“Cabocla Tereza”, que carrega uma história de feminicídio (veja mais abaixo), já foi gravada por artistas como Chitãozinho & Xororó, Tonico & Tinoco, Sérgio Reis e Eduardo Costa. Ao todo, Pacífico soma 1.450 composições, das quais 650 já foram gravadas.
“Ele tem uma poesia bem típica. Ele fala muito da simplicidade e das coisas pequenas, as coisas miúdas do cotidiano caipira. Então ele vai fazer músicas sobre o doce de cidra, por exemplo, vai fazer sobre o ‘Mourão da Porteira’. São coisas assim, do cotidiano caipira, que, naquela altura, davam um sentido nostálgico”, diz o pesquisador de música caipira Walter de Sousa, autor do livro “Moda Inviolada - Uma História da Música Caipira”.
O compositor é reconhecido como criador da chamada “toada poética”, um gênero narrativo normalmente usado para descrever a vida no campo, episódios dramáticos ou sentimentos de melancolia. A canção começa, geralmente, com um prelúdio instrumental na viola e possui caráter monódico, com andamento lento.
“Quando ele faz ‘Chico Mulato’ e ‘Cabocla Tereza’, por exemplo, ele introduz a história como poesia, e depois entra a toada com a dupla complementando essa história. Isso fez muito sucesso, porque era uma inovação naquela altura em que o gênero caipira já estava se consolidando dentro da indústria fonográfica. Tanto que a própria gravadora pediu para ele fazer mais”, afirma Walter.
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Simbologia
Evento homenageia João Pacífico em Cordeirópolis
Departamento de Comunicação de Cordeirópolis
Pacífico se mudou de Cordeirópolis ainda na infância. Mesmo assim, criou raízes que permanecem até hoje no município. Ele dá nome, inclusive, a um teatro municipal, situado na Rua Siqueira Campos, 404, na Vila Lídia.
“O teatro é um importante equipamento cultural da cidade, utilizado para apresentações artísticas, eventos culturais, espetáculos musicais e atividades educativas. Além de manter viva a memória do artista, o espaço também contribui para o fortalecimento da produção cultural local e regional”, comunicou a prefeitura.
O município também disponibiliza gratuitamente um livro que reúne letras e poesias do compositor. Além disso, há o Dia Municipal da Música Sertaneja de Cordeirópolis, celebrado sempre em 5 de agosto, em alusão ao dia do nascimento de Pacífico.
A prefeitura informou ter realizado, no ano passado, um evento para celebrar essa data. Na ocasião, houve exposição com fotos do artista, apresentação do grupo Pingo D'Água só com músicas de Pacífico, recital de poesias com as letras dele, orquestra de violeiros e shows de artistas sertanejos da cidade.
Segundo o Executivo, a iniciativa foi incluída no cronograma oficial de eventos do município, garantindo sua continuidade nos próximos anos.
Apesar de ter passado apenas sua infância em Cordeirópolis, Pacífico sempre se referia à cidade e tinha orgulho da região, de acordo com Walter.
“Eu vi uma gravação dele lá no Museu da Imagem do Som, e ele falava o seguinte: ‘eu nasci numa cidade chamada Cordeiro, que depois mudou para Cordeirópolis’. Era Cordeiro porque tinha lá um sujeito que fazia cordas”, conta.
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Música Cabocla Tereza
Uma de suas músicas mais famosas, “Cabocla Tereza” surgiu na década de 40 e mostra como se lidava com a violência contra a mulher naquela época.
A música é introduzida por um personagem que presencia um feminicídio e depois traz o relato, em primeira pessoa, do autor do crime, que mata Tereza por vingança passional, após ser traído por ela.
Professora de Letras da Pontifícia Universidade Católica (PUC) Campinas, Cristina Betioli citou a condição de submissão vivida pelas mulheres naquele tempo, quando nem mesmo a Justiça as defendia.
“A gente não tem [naquela época] amparo na lei para proteger mulheres que desagradam esses homens, que são como se fossem tutores delas. E aí, quando eles se sentem desagradados ou mesmo diante da possibilidade do adultério, elas eram mortas. Elas eram mortas sem consequência”, afirma.
Do ponto de vista da criação poética, estética e artística, Cristina elogiou a canção, que, segundo ela, possui uma metrificação “perfeita”. “Ela é muito elaborada, porque ela tem vários elementos da metrificação poética.”
Por outro lado, a professora defende que a música deve ser vista com ponderações, por conta da forma naturalizada que a violência contra a mulher é tratada na letra.
“Entendo que a gente não deva abolir, como se fosse assim uma página riscada para ser queimada. Mas, uma vez consideradas como fontes importantes de criação artística e cultural, que sejam criticadas, que haja ponderação, que haja debates em cima”, destaca.
Confira a letra:
Lá no alto da montanha
Numa casinha estranha, toda feita de sapê
Parei uma noite a cavalo
Pra mode' de dois estalos que ouvi lá dentro bater
Apeei com muito jeito
Ouvi um gemido perfeito e uma voz cheia de dor
Vancê', Tereza, descansa
Jurei de fazer vingança pra morte do meu amor
Pela réstia da janela por uma luzinha amarela
De um lampião quase apagando
Vi uma cabocla no chão e um cabra tinha na mão
Uma arma alumiando
Virei meu cavalo a galope
Risquei de espora e chicote, sangrei a anca do tar'
Desci a montanha abaixo
E galopeando meu macho, o seu doutor fui chamar
Vortemo' lá pra montanha
Naquela casinha estranha eu e mais seu doutor
Topemo' um cabra assustado
Que chamando nóis prum' lado a sua história contou
Há tempo eu fiz um ranchinho
Pra minha cabocla morar
Pois era ali nosso ninho
Bem longe deste lugar
No arto' lá da montanha
Perto da luz do luar
Vivi um ano feliz
Sem nunca isso esperar
E muito tempo passou
Pensando em ser tão feliz
Mas a Tereza, doutor
Felicidade não quis
O meu sonho nesse oiá'
Paguei caro meu amor
Pra mode' outro caboclo
Meu rancho ela abandonou
Senti meu sangue ferver
Jurei a Tereza matar
O meu alazão arriei
E ela eu fui percurar'
Agora já me vinguei
É este o fim de um amor
Essa cabocla eu matei
É a minha história, doutor
História
João Pacífico nasceu em Cordeirópolis, em 1909
Arquivo/Secretaria de Cultura de Cordeirópolis
Segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, Pacífico viveu o início de sua infância no campo, em Cordeirópolis, de onde saiu aos 7 anos.
Começou ainda menino, em Limeira (SP), a tocar bateria em uma orquestra que se apresentava no cinema local e, em 1919, mudou-se para Campinas.
No entanto, sua vida não foi dedicada apenas à música. Na adolescência, ele chegou a trabalhar como ajudante de lavador de pratos nos vagões-restaurante da Cia Paulista de Estradas de Ferro e, durante o serviço, acabou descoberto pelo poeta Guilherme de Almeida.
“Ele gostava de fazer versos e foi mostrar para o Guilherme de Almeida, que leu os versos, achou muito interessante e falou: ‘procura essa pessoa na rádio em São Paulo. Ele deu o endereço do Raul Torres, que na época fazia muito sucesso cantando emboladas e que, depois, ia ficar muito famoso com a dupla Raul Torres & Florêncio. E aí, a partir desse encontro na rádio, é que ele começa a compor, principalmente, para essa dupla”, conta Walter.
Pacífico, então, se firmou como compositor, mas teve dificuldade para se tornar um artista conhecido popularmente. Tanto é que se aposentou como motorista particular.
“Ele nunca teve um status artístico, talvez pelo fato de ser negro. Não se dava muita visibilidade para artistas negros na época que não cantassem samba”, diz o pesquisador.
Ele passa a ganhar mais reconhecimento no final da vida, após uma participação no programa de televisão “Viola, Minha Viola”, quando foi convidado pela cantora Inezita Barroso para se apresentar.
“Aí vários artistas o procuram para gravar as composições dele, para procurar novas composições, porque ele sempre continuou compondo, nunca deixou de compor. Então ele virou meio que um ícone caipira reconhecido tardiamente”, afirma Walter.
Pacífico morreu em Guararema (SP), onde estava morando, devido a problemas respiratórios. Ele tinha 89 anos.
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