De 'Fidelíssima' a 'Berço da República': entenda a relação de Itu com D. Pedro I durante a Independência do Brasil
07/09/2026
(Foto: Reprodução) Entenda relação de Itu com D. Pedro I durante a Independência do Brasil
“Eu, o Imperador Constitucional e Defensor Perpetuo do Imperio do Brazil. (...) Hei por bem Conceder à comarca de Itú o título de — Fidelissima — de que ficará gozando perpetuamente.”
As palavras estão no Alvará de 17 de março de 1823, publicado na base de legislação da Câmara dos Deputados. No documento, Dom Pedro I concede à comarca de Itu (SP) o título de "Fidelíssima", em reconhecimento pela lealdade demonstrada durante o processo de Independência do Brasil, ocorrido no ano anterior.
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No entanto, 50 anos depois, a cidade também se tornaria um dos principais símbolos do movimento republicano no país, que defendia mudanças na estrutura política e social da monarquia e ganhou força até a Proclamação da República, em 1889.
Nesta segunda-feira (7), Dia da Independência do Brasil, o g1 revisitou o passado e conversou com a historiadora Mariana Alice Pereira e o historiador Leonardo Rodrigues para falar sobre a relação complexa entre Itu, D. Pedro I e a monarquia.
“A cidade possuía importância econômica devido à lavoura canavieira, assim os fazendeiros declararam apoio a D. Pedro I meses antes de proclamar a Independência. O manifesto produzido pela Câmara de Itu em 1822 formalizou o apoio ao monarca, evidenciando assim o posicionamento das elites agrárias da região”, explica Mariana.
Dom Pedro I representado no quadro 'Independência ou Morte', de Pedro Américo
Fábio Tito/g1
🔎 A Imperatriz Maria Leopoldina, esposa de Dom Pedro I, teve papel decisivo no processo de Independência do Brasil. Em 2 de setembro de 1822, enquanto princesa regente, ela assinou o decreto que recomendava a separação do Brasil de Portugal e defendeu a ruptura com a Coroa portuguesa.
Isso porque, no mesmo ano, durante a chamada "Bernarda de Francisco Inácio" — movimento que contestava o governo da província de São Paulo —, a comarca negou o envio de tropas para a capital e declarou lealdade somente ao príncipe regente. A posição também teve apoio de Sorocaba e Porto Feliz (SP).
A Bernarda foi uma revolta política que aconteceu em São Paulo, em 1822. O conflito envolveu grupos que disputavam o controle do governo da província.
“Itu teve participação na revolta porque era uma vila rica e próspera e, por isso, tinha importância política na época. As notícias chegaram à cidade por meio do vereador Antonio Pacheco da Fonseca, que havia presenciado a deposição de Martim Francisco de Andrada e a movimentação das tropas de Francisco Inácio”, explica Leonardo.
Retrato de Dom Pedro I, em 1830
Simplício Rodrigues de Sá
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Segundo o historiador, a chegada dessas informações provocou a reação das principais lideranças da vila, que passaram a defender uma posição contrária ao governo provincial e favorável a José Bonifácio e ao príncipe regente.
“As cabeças pensantes da vila ficaram indignadas, e o ituano Francisco de Paula Souza e Melo, que viria a ser o grande conselheiro do Império, aconselhou os vereadores a se posicionarem contra os últimos atos praticados pelo governo provincial", diz.
Com isso, Itu se colocou contra a campanha bernardista e ao lado das forças que apoiavam Dom Pedro I. A posição política da vila foi liderada pelo capitão-mor Vicente Taques de Góis e Aranha, que, segundo Leonardo, reforçou a fidelidade de Itu ao príncipe.
“Um ano depois, D. Pedro I, agora imperador do Brasil independente, condecorou a vila de Itu com o título de Fidelíssima, por sua lealdade em todo o processo de emancipação do Brasil, ao lado dele como governante", diz.
Segundo o Museu Republicano de Itu (USP), a homenagem tinha caráter simbólico, mas representava um reconhecimento oficial da monarquia e era uma decisão exclusiva do imperador.
Atualmente, o acervo do Museu preserva essa memória com sete painéis de azulejos no salão de entrada, dedicados à participação da cidade no processo de Independência. Desses, cinco retratam episódios da Bernarda de Francisco Inácio, incluindo a assinatura do título de “Fidelíssima”. Confira abaixo:
painel do Museu Republicano de Itu retrata a cerimônia de adesão da cidade à causa da independência brasileira
Museu Republicano de Itu (USP)
Em 17 de março de 1823, Dom Pedro I concedeu a Itu (SP) o título de cidade 'Fidelíssima' devido à sua lealdade
Museu Republicano de Itu (USP)
O encontro de D. Pedro I com as lideranças de Itu (SP) antes da Independência
Museu Republicano de Itu (USP)
Painel ilustra um dos episódios de resistência do povo ituano durante a crise política de 1822 na Província de São Paulo
Museu Republicano de Itu (USP)
No entanto, a fidelidade à monarquia não seria permanente. Segundo Mariana, ao longo das décadas, os interesses políticos de parte das elites de Itu mudaram, e o discurso republicano começou a ganhar espaço na cidade.
“Parte da elite percebeu que a monarquia não atendia mais aos seus interesses, principalmente em relação à escravidão. Com isso, o discurso republicano ganhou força e se concretizou com o Partido Republicano e a Convenção de Itu”, explica.
Diante desse cenário, em 1871, foi criado em Itu um Clube Republicano. Dois anos depois, em 18 de abril de 1873, a cidade sediou a Convenção Republicana, considerada um marco da organização do movimento republicano em São Paulo. Na época, o país já era governado por Dom Pedro II, filho de D. Pedro I e de Maria Leopoldina da Áustria.
“A transição da cidade para o 'Berço da República' também está ligada a parte das elites agrárias, mas especialmente a profissionais liberais, jornalistas e políticos que viam o Império como retrógrado em meio a inúmeras crises, como a financeira e a própria escravidão”, diz.
Pintura de Dom Pedro I, de Portugal, e Leopoldina, da Áustria
Arnaud Pallière
Visita de D. Pedro II e homenagem a Itu
Segundo Leonardo, apesar da relação de Itu com Dom Pedro I, não há registros de que o imperador tenha ido para a cidade durante o período da Independência. Quem, de fato, visitou a região foi seu filho, Dom Pedro II. A primeira passagem ocorreu em 1846, quando o imperador tinha 20 anos.
“Ele chegou a Itu em 23 de março, vindo de Porto Feliz, e se hospedou no casarão do tenente Fernando Pais de Barros, em frente à Praça da Matriz. No dia seguinte, ele foi até Salto (ainda pertencente a Itu), a cavalo. Ficou lá por três dias, e depois foi embora”, conta.
Leonardo pontua que a viagem pela região também tinha uma finalidade política. “A visita pela região tinha por objetivo fazer-se conhecido da população, conquistar confiança e estabelecer alguns laços políticos”, explica.
Além de Itu e Porto Feliz, Dom Pedro II passou por São Bernardo, Cotia e Sorocaba (SP). O imperador ainda voltou à região em 1875 e, posteriormente, em 1886, segundo o historiador.
Dom Pedro II, o último imperador do Brasil
Antônio de Souza Lobo e Félix Émile Taunay
“É provável que o imperador tenha conhecido a Fábrica de Ferro São João de Ipanema, no morro do Araçoiaba, e tenha se encontrado com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, que havia sido presidente da província de São Paulo”, diz.
A primeira visita a Itu também ficou marcada pela lembrança da fidelidade demonstrada pela população local ao pai do imperador. Segundo o Museu Republicano de Itu, ao fim da passagem, Dom Pedro II agradeceu o acolhimento recebido com uma quadrinha de versos que fazia referência à lealdade do povo ituano:
“O sincero acolhimento
Do fiel povo ituano
Gravado fica no peito
Do seu grato soberano”.
Praça da Matriz, em Itu (SP)
Prefeitura de Itu/Divulgação
Fotografia histórica de Dom Pedro II, tirada em 1876
Mathew Brady
Historiadora Mariana Alice Pereira, de Sorocaba (SP), e historiador Leonardo Rodrigues, de Itu (SP)
Arquivo Pessoal
*Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida
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