Entenda por que a segunda voz exige técnica e é peça essencial no sertanejo
06/05/2026
(Foto: Reprodução) Prédio musical? Metáfora explica como é o encontro de vozes no sertanejo
As duplas são um formato consolidado na história do sertanejo, resultado de uma evolução técnica e comercial que transformou a música rural em um fenômeno. É um modelo que tem dado certo desde 1929. Mas afinal, por que ter uma segunda voz é algo tão vantajoso no sertanejo?
No sertanejo, a divisão de vozes segue uma lógica simples: Tradicionalmente, a primeira voz costuma ser a voz mais aguda, ou seja, mais fina. Já a segunda é a mais grave.
A segunda voz nem sempre é identificada individualmente pelos ouvintes, e isso pode levar a um engano comum: pensar que ela não é tão relevante para a música.
Quem entende, garante: ela não é apenas um acompanhamento, é um complemento essencial que trabalha dentro da melodia para criar uma sonoridade “cheia”.
🤠 Esta história faz parte de uma série de reportagens sobre música sertaneja que marca o lançamento do concurso cultural "ÉPra Cantar". Nesta edição, a dupla vencedora vai se apresentar na Festa de Peão de Barretos, o maior rodeio da América Latina.
Andares da música
O músico e podcaster Daniel Teixeira Lopes, conhecido como Willian Segundeiro Raiz, é referência no ensino da segunda voz e explica o dueto sertanejo usando a metáfora de um prédio de sete andares.
O prédio representa o tom da música, e os sete andares correspondem às sete notas musicais. A primeira voz está em um andar mais alto, o sétimo, por exemplo, enquanto a segunda está em um mais baixo, como o terceiro ou o quarto.
“Elas vão estar sempre mudando de andar e caminhando. Sempre a primeira voz para o agudo, e a segunda voz para o grave. De vez em quando, elas vão até se encontrar, fazer a mesma voz, que a gente chama de uníssono”, explica Willian.
Elas também podem se inverter: quando a segunda voz sobe para um andar mais alto que a primeira, acontece a tercinha, uma técnica que também é bem popular no sertanejo – duplas da década de 1990, como João Paulo e Daniel, e Leandro e Leonardo, exploravam bastante essa sonoridade.
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Essa mudança de andares ou notas é fundamental para criar harmonia e a sensação de preenchimento sonoro que é tão característico do gênero. Com essa dinâmica, os cantores conseguem evitar que a música fique monótona.
É como se as vozes fossem desenhando a melodia: uma pode fazer um traço mais reto enquanto a outra oscila, sobe e desce. “Fica errado se ela sair de algum andar ali para um outro prédio”, diz Willian.
⚠️ Sair do prédio, neste caso, significa sair do tom da música, ou seja, desafinar.
O músico e podcaster Daniel Teixeira Lopes, conhecido como Willian Segundeiro Raiz, explica como funciona a segunda voz no sertanejo
Reprodução/EPTV
Fazer a segunda voz é uma tarefa complexa justamente porque não significa apenas cantar uma oitava abaixo da primeira. “Ela tem que trabalhar ali, dentro da melodia da primeira”, afirma o Segundeiro Raiz.
Isso também explica o por que, às vezes, as carreiras solo de ex-parceiros não fazem tanto sucesso quanto a dupla.
“Podemos falar de Christian e Ralph, e de Edson e Hudson. Lógico que o Edson teve a carreira solo dele, mas a dupla voltou e olha só como está hoje. Voltaram forte demais”, exemplifica Willian.
Único arrependimento
Por falar em Edson e Hudson, a dupla fala abertamente sobre um único arrependimento na trajetória de 30 anos. Talvez você já tenha adivinhado qual. “A gente não se arrepende praticamente de nada que fizemos na carreira. A não ser a separação”, diz Hudson.
Os irmãos se separaram no fim de 2009 e retomaram a parceria em 2011. “Para mim, foi a pior fase da minha vida no sentido da falta que o Hudson fazia”, afirma Edson. “Porque a base de tudo está nos arranjos, na boa ideia da melodia, na segunda voz que ele fazia”.
Ele também destaca justamente o que o Segundeiro Raiz explicou.
“Segunda voz é o contrário do que as pessoas pensam. É mais difícil do que a primeira. Mas o que eu mais senti falta nessa época é que o Hudson não é apenas uma segunda voz, ele é um arranjador, é o cara que faz as produções. As ideias vêm dele”, afirma.
Edson considera o irmão a melhor segunda voz moderna do Brasil, e não esconde como foi difícil a carreira solo. “Ele sentiu falta de mim, mas como eu estava na estrada, eu senti mais. Não é fácil carregar as coisas nas costas não. Tanto que eu pus dois caboclos lá e não davam conta não”, lembra.
Dupla sertaneja Edson e Hudson
Pedro Santana/EPTV
Casamento de timbres
Edson e Hudson têm outra vantagem nessa parceria de sucesso. “Quando são irmãos, os timbres de voz são parecidos. Então, uma voz casa na outra”, explica Willian, o Segundeiro Raiz.
Apesar da vantagem, isso não é um fator determinante. A técnica pode suprir a falta de parentesco sem problemas. Era o caso, por exemplo, de João Paulo e Daniel.
“O João não é irmão do Daniel e as vozes timbravam perfeitamente. Ele tinha uma extensão vocal muito interessante: cantava muito agudo e muito grave. Praticamente nenhum dos segundeiros da época tinha isso daí”, explica Willian, o Segundeiro Raiz.
Outro ponto importante é que ter carreira solo não significa não ter segunda voz. É comum que o próprio cantor grave a segunda voz e coloque na edição final.
Exemplos de artistas que já utilizaram essa estratégia são Gusttavo Lima, Cristiano Araújo e Barrerito, que fez parte do Trio Parada Dura.
Por isso, apesar do senso comum de que quem canta “de verdade” é a primeira voz, o sucesso depende mesmo é da harmonia entre vozes – sejam elas cantadas por duas pessoas diferentes ou pela mesma pessoa em tons diferentes.
“A primeira voz automaticamente tem um pouco mais de potência, ela chega chegando mesmo. A segunda já é um pouquinho mais atrás. Mas se o segunda voz não consegue alcançar os tons do primeiro, não quer dizer que ele não cante. Não tem nada a ver uma coisa com a outra”, afirma Willian.
A dupla sertaneja Matogrosso e Mathias
Reprodução/EPTV
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