'Eu pertenço a esse lugar': criador de conteúdo constrói carreira no Capão Redondo e sonha com a música
11/08/2026
(Foto: Reprodução) Glay: o influenciador que impulsiona negócios da quebrada
Glaydson Nuunes, conhecido como Glay, de 27 anos, sempre se enxergou como artista. Criado na periferia de São Paulo, ele começou a produzir conteúdo na internet há cerca de dez anos e, ao longo da trajetória, transformou experiências pessoais e vivências do território em trabalho.
Hoje, morador do Capão Redondo, na Zona Sul da capital, Glay produz vídeos sobre o cotidiano, alimentação, experiências pessoais e estabelecimentos da periferia. Também trabalha com publicidade e monetização das redes sociais. Mas o objetivo profissional vai além da internet: ele quer viver da música.
“Eu me reconheço como artista e tudo que eu faço é com amor”, afirma.
Glaydson Nuunes é mais um entrevistado da série Influência de Cria, que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do "Influência de Cria" para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop.
Glay escolheu o Capão Redondo para construir a própria trajetória
g1
A relação com o Capão Redondo começou há cerca de três anos, quando Glay decidiu sair de perto da família para construir a própria vida. Segundo ele, a escolha foi uma das melhores decisões que tomou.
“Eu decidi sair de perto da minha família para construir uma vida aqui no Capão Redondo e foi a melhor decisão que tomei na minha vida.”
Mesmo com a possibilidade de morar em outros lugares, Glay diz que não pretende deixar o bairro neste momento. Para ele, o território se tornou parte da identidade e também do trabalho que desenvolve.
“Eu tenho a possibilidade de sair daqui. Eu cheguei num lugar em que eu consigo ter escolha de onde eu posso morar, mas eu pertenço a esse lugar que ainda não acabou minha missão aqui.”
A relação de Glay com a internet começou há cerca de dez anos, ainda no Snapchat. Desde criança, ele conta que gostava de se comunicar, aparecer e criar.
“Eu sempre fui muito exibido, sempre fui uma criança muito exibida, muito artista, muito arteira. Eu sempre me vi artista desde criança.”
Criador de conteúdo aposta na valorização de estabelecimentos da periferia
Reprodução
Ao longo dos anos, ele passou por diferentes formatos e plataformas até encontrar uma maneira própria de produzir conteúdo. Hoje, diz que mostra nas redes as experiências reais que vive, inclusive quando faz publicidade.
Para ele, a criação de conteúdo também sempre foi pensada como profissão.
“Eu sempre enxerguei isso como um negócio. Sempre entendi que isso tinha que me dar dinheiro. Não era só uma coisa que eu fazia pelo amor. Eu fazia pelo amor, mas eu precisava e queria viver disso.”
Glay afirma que, durante boa parte da trajetória, precisou continuar acreditando no próprio trabalho mesmo sem o reconhecimento que esperava.
“Eu fui o único que acreditei em mim assim esse tempo todo.”
🏪 Comércio local como parte do trabalho
Uma das características do conteúdo de Glay é a valorização de estabelecimentos da própria periferia. Ele passou a registrar experiências em restaurantes e outros comércios locais e percebeu que poderia usar a audiência para apresentar esses lugares ao público.
Para ele, muitos comerciantes do território oferecem produtos e serviços de qualidade, mas nem sempre recebem a mesma visibilidade que estabelecimentos mais conhecidos.
“Tem muitos comerciantes locais que estão fazendo um trabalho muito melhor e que não têm o reconhecimento que esses lugares têm.”
Glay também considera que, para quem vive na periferia, ter acesso a momentos de lazer e consumo pode exigir planejamento financeiro. Por isso, acredita que mostrar opções dentro do próprio território é uma maneira de ampliar as possibilidades do público.
“Para a gente que é da periferia, é tão difícil a gente ter uma experiência no mês. A gente tem que esperar o momento certo do cartão virar, do pagamento virado, que sobrar do aluguel para a gente ter uma experiência boa.”
A relação com os comerciantes também virou uma fonte de renda. Hoje, Glay afirma que vive da criação de conteúdo, da monetização das plataformas e das publicidades que realiza.
“Hoje eu vivo do meu conteúdo. Toda a minha receita vem do público local e eles que me contratam, eles que me sustentam.”
Antes de aceitar uma publicidade, ele diz que procura conhecer o estabelecimento e conversar com os responsáveis. Também pede para receber o mesmo atendimento que qualquer cliente teria.
“Eu sempre peço para que eles não me tratem de maneira diferente e que eles façam o mesmo atendimento que eles fariam com qualquer pessoa.”
Um dos exemplos citados por Glay é o Fogo de Rua, estabelecimento do Capão Redondo que ganhou repercussão nas redes após ele divulgar um dos produtos da casa. O lanche do estabelecimento virou uma tendência e passou a atrair pessoas de outras regiões e até de outros estados.
Para Glay, a experiência reforçou a ideia de que seu trabalho também pode movimentar negócios do próprio território.
“Meu trabalho no intuito de tudo isso era trazer a visão da galera de que aqui na quebrada tem muita coisa boa e vocês precisam olhar para isso aqui.”
Glay lançou músicas autorais e sonha em viver da carreira musical
Reprodução
Agressão homofóbica mudou trajetória
Antes da fase atual, Glay passou por um dos momentos mais difíceis da vida. Ele conta que foi agredido durante uma festa depois de pegar na mão da então namorada.
Segundo ele, o homem que o atacou o atingiu com um soco no rosto. A agressão provocou uma fratura no maxilar e fez com que ele permanecesse cerca de 45 dias com a boca imobilizada, alimentando-se por um canudo.
Glay afirma que a agressão foi motivada por homofobia.
“Foi o período mais difícil da minha vida. Mas, ao mesmo tempo, eu sinto que foi a virada de chave.”
Depois do episódio, ele passou por outros problemas de saúde e ficou cerca de dois anos afastado das redes sociais.
Durante esse período, diz que começou um processo de reconstrução pessoal. Longe da exposição da internet, passou a estudar, ler e buscar referências que o ajudassem a compreender o momento que estava vivendo.
Entre as leituras, cita o escritor Augusto Cury. Na entrevista, Glay não especifica o título do livro, mas diz que os textos do autor tiveram importância no processo.
“Li muito Augusto Cury. Ele me ajudou a rebobinar minha mente, nesse sentido de enxergar a vida como ela é, de ter muito mais autorresponsabilidade, não só autoconhecimento.”
'Recomeço' marca volta às redes
A volta para a internet aconteceu acompanhada de uma nova fase artística. Glay retornou às redes lançando a música “Recomeço”, produzida durante um projeto gratuito de produção musical.
A faixa nasceu depois que ele participou de um curso de três meses. Durante uma atividade, recebeu uma base musical e decidiu escrever uma letra.
O nome da música representa o momento vivido pelo artista.
“Recomeço é uma palavra muito forte para mim, porque realmente foi um recomeço. Eu, aos 20, 20 e tantos anos da minha vida, eu decidi recomeçar. Não foi nada fácil. Foi muito, muito difícil. Foi acreditar muito.”
Embora atualmente consiga viver da produção de conteúdo, Glay afirma que o grande sonho é viver da música.
“Música, eu vejo como o meu coração. É uma das maneiras que eu encontro de contar uma história.”
Glay não acredita que o caminho para crescer na internet seja apenas acompanhar aquilo que está viralizando. Para ele, o principal diferencial de um criador é conseguir transformar a própria história em conteúdo.
“Às vezes não é um vídeo viral que vai te trazer muitos seguidores, mas um vídeo que conte a sua história, que conte um pedaço de uma dor que você sentiu, que vai te conectar a várias pessoas que não tiveram coragem de falar o que você viveu.”
Para ele, manter uma relação saudável com a internet também significa não transformar todos os momentos da vida em conteúdo.
“Eu quero viver essa viagem. Não quero só ir fazer uma foto, postar no feed. Eu quero viver, eu quero sentir o cheiro das coisas, eu quero viver o tempo daquele espaço.”
Referências
Entre suas referências pessoais, Glay cita a mãe, que considera uma das pessoas que mais admira, e, na música, o cantor Thiago Veight.
Ele também participa de mentorias e atividades para jovens interessados em criação de conteúdo e acredita que a própria história é a principal ferramenta para quem quer começar.
'Quando eu chegar lá, vai ser tudo meu'
Mesmo com a possibilidade de morar em outros lugares, Glay diz que não pretende deixar o Capão Redondo neste momento. O bairro faz parte de sua identidade e da trajetória que construiu.
Agora, quer continuar produzindo conteúdo enquanto trabalha para transformar a música em sua principal carreira.
“Eu sei que isso vai levar um tempo, mas quando eu chegar lá vai ser tudo meu.”
📰 Leia a entrevista completa abaixo
Como você se define profissionalmente?
“Meu nome é Glaydson Nuunes, tenho 27 anos, minha profissão é criador de conteúdo, hoje em dia chamado como profissional multimídia. E sou artista também. Na verdade, eu sou mais artista do que só profissional. O artista é o coração.”
Como começou sua relação com o Capão Redondo?
“Eu decidi sair de perto da minha família para construir uma vida aqui no Capão Redondo e foi a melhor decisão que tomei na minha vida.”
Por que você decidiu permanecer no Capão?
“Eu tenho a possibilidade de sair daqui. Eu cheguei num lugar em que eu consigo ter escolha de onde eu posso morar, mas eu pertenço a esse lugar que ainda não acabou minha missão aqui.”
Quando você começou na internet?
“Tem mais ou menos dez anos. Eu falo dez anos porque minha professora de inglês hoje em dia, a Lila, me segue desde o Snapchat.”
Como você começou a produzir conteúdo?
“Eu sempre fui muito exibido, sempre fui uma criança muito exibida, muito artista, muito arteira. [...] Eu sempre me vi artista desde criança.”
Por que você decidiu valorizar os comerciantes locais?
“Meu trabalho no intuito de tudo isso era trazer a visão da galera de que aqui na quebrada tem muita coisa foda e vocês precisam olhar para isso aqui.”
Como você faz publicidade para os estabelecimentos?
“Eu sempre peço para que eles não me tratem de maneira diferente e que eles façam o mesmo atendimento que eles fariam com qualquer pessoa.”
O que a música representa para você?
“Música, eu vejo como o meu coração. É uma das maneiras que eu encontro de contar uma história.”
Como nasceu a sua música 'Recomeço'?
“Recomeço é uma palavra muito forte para mim, porque realmente foi um recomeço. Eu, aos 20, 20 e tantos anos da minha vida, eu decidi recomeçar. Não foi nada fácil. Foi muito, muito difícil. Foi acreditar muito.
O que ajudou você durante os dois anos afastado das redes?
“Li muito Augusto Cury. Ele me ajudou a rebobinar minha mente, nesse sentido de enxergar a vida como ela é, de ter muito mais autorresponsabilidade, não só autoconhecimento.”
Por que você não aceita publicidade de bets?
“Como eu vou divulgar uma coisa que não fez bem para mim? A única vez que eu joguei me fez um mal absurdo.”
Qual é o seu maior sonho?
“Eu me reconheço como artista e tudo que eu faço é com amor. [...] O meu sonho é poder viver da música.”
Você se vê saindo do Capão Redondo?
“Eu pertenço a esse lugar que ainda não acabou minha missão aqui.”
“Eu pertenço a esse lugar”, diz Glay sobre o Capão Redondo
Reprodução