Funcionário da Fazenda de SP tinha 'manual de ocultação de bens' apreendido pelo MP em operação contra fraude no ICMS

  • 26/03/2026
(Foto: Reprodução)
'Fisco Paralelo': MP faz buscas em condomínio de luxo e mira servidores da Sefaz-SP A “Operação Fisco Paralelo”, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), cumpre nesta quinta-feira (26) mais de 22 mandados de busca e apreensão contra funcionários da Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz-SP) e um de prisão. Ao menos 16 servidores das delegacias regionais fazendárias são alvo dos promotores. Com eles, foram apreendidas grande quantidade de dinheiro em espécie e relógios avaliados em até R$ 1 milhão. A prova mais surpreendente, segundo os investigadores, foi um arquivo encontrado na conta do Google de um dos fiscais presos anteriormente na chamada Operação Ícaro, Marcelo de Almeida Gouveia, intitulado “Instruções para fazer inventário”. O documento puxou o fio da meada que resultou na operação dessa quinta-feira (26). De acordo com os promotores, longe de ser um manual comum, o arquivo funcionava como um guia para lavagem de dinheiro da quadrilha. O objetivo era garantir que o patrimônio obtido por meio de propina fosse mantido em “absoluto segredo” e pudesse ser acessado pelos beneficiários do esquema. O manual indica que a propina era convertida em criptomoedas, como bitcoins, e mantida em carteiras de autocustódia. Isso significa que, diferentemente de bancos, os valores ficavam em “carteiras frias” — dispositivos físicos semelhantes a pen drives, que não se conectam à internet e funcionam como cofres digitais, à prova de interceptação remota. Para acessar esses recursos, o manual trazia instruções sobre o uso de “seed phrases” (frases de recuperação), códigos que costumam ser anotados em papel ou escondidos em objetos aparentemente inofensivos para evitar o bloqueio de bens e valores pela Justiça. Dólares em paraísos fiscais Apreensão de dinheiro vivo em alvos da 'Operação Fisco Paralelo', do Ministério Público de São Paulo, que tem funcionários do governo de São Paulo como alvos. Reprodução/TV Globo A investigação também apontou que Walter de Brito Reis, companheiro do fiscal Marcelo de Almeida Gouveia, atuava de forma ativa para ocultar o dinheiro de propina recebido pelo servidor da Sefaz-SP. Segundo os promotores, Gouveia agiu em conluio com o fiscal Artur Gomes da Silva Neto em um esquema de isenção de créditos de ICMS paulista que favoreceu as empresas Ultrafarma e Fast Shop, alvos da primeira fase da “Operação Ícaro”, em agosto de 2025. Brito Reis tentava movimentar mais de US$ 270 mil (mais de R$ 1,3 milhão) em uma conta conjunta mantida em um paraíso fiscal. Ele está em prisão preventiva em razão da operação do ano passado. Operação Fisco Paralelo MP faz operação contra fraudes na Fazenda De acordo com o Ministério Público, as diligências são realizadas em endereços vinculados a servidores lotados em cinco diferentes órgãos da Secretaria da Fazenda, da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos): Delegacia Regional Tributária da Capital II (Lapa); Delegacia Regional Tributária da Capital III (Butantã); Delegacia Regional Tributária 12 (ABCD); Delegacia Regional Tributária 14 (Osasco); Diretoria de Fiscalização (DIFIS). Em nota, a Secretaria da Fazenda e Planejamento afirmou que "a Corregedoria da Fiscalização Tributária (Corfisp) atua em conjunto com o Ministério Público, colaborando com todas as investigações do órgão. A pasta reafirma seu compromisso com a ética, a justiça fiscal e a apuração rigorosa de eventuais irregularidades, nos termos da lei. Atualmente, estão em andamento 33 procedimentos administrativos para apurar possíveis irregularidades envolvendo servidores, que podem resultar em sanções, inclusive demissão." A Sefaz-SP também atua de forma integrada e com rigor no combate à sonegação, à lavagem de dinheiro e a crimes contra a ordem tributária, por meio do Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (CIRA-SP). Apreensão de dinheiro vivo e relógios com alvos da 'Operação Fisco Paralelo', do Ministério Público de São Paulo, que tem funcionários do governo de São Paulo como alvos. Reprodução Operação Ícaro Essa nova operação do MP paulista é um desdobramento da Operação Ícaro, que investigou desvios de créditos envolvendo o caso Ultrafarma/Fast Shop, em agosto de 2025. A nova fase teve início após o Ministério Público obter novas informações sobre novas irregularidades dentro da Secretaria da Fazenda do governo paulista. Dono da Ultrafarma é preso em operação em São Paulo Na Operação Ícaro, os promotores do Gedec partiram do fiscal Artur Gomes da Silva Neto para chegar ao núcleo técnico da organização, coordenado por Maria Hermínia de Jesus Santa Clara, que atuava como contadora do grupo. A partir do celular dela, a investigação foi ampliada. Maria Herminia já está presa preventivamente em decorrência do esquema com o grupo Nortene, investigado na Operação Mágico de Oz, outra etapa da Operação Ícaro que investigou fraudes dentro da mesma secretaria. Os promotores identificaram elementos que demonstram a captura de diversos órgãos da Secretaria Estadual da Fazenda de SP. Os alvos da investigação ocupavam cargos como agente fiscal de renda, inspetor fiscal, coordenador e delegado regional tributário, distribuídos em unidades como as delegacias regionais tributárias da Lapa, do Butantã, do ABCD e de Osasco, na Grande SP. Viatura da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP), usada nas fiscalizações fazendárias. Divulgação/GESP Segundo o MP, a operação desta quinta (26) conta com o apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do CyberGaeco, do Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (Cira) e da Polícia Militar. O objetivo é desarticular a organização criminosa e coletar documentos, mídias e outros elementos que contribuam para o avanço das investigações e a completa elucidação dos fatos. CGE e MP de São Paulo fazem reunião sobre o caso Ultrafarma Maria Hermínia de Jesus Segundo o MP, o avanço da Operação Ícaro foi possível justamente em virtude da apreensão do celular da contadora Maria Hermínia de Jesus Santa Clara, que já tinha sido alvo da operação contra a Fastshop e a Ultrafarma. No curso das investigações, os promotores descobriram que, na verdade, ela tinha um papel muito mais importante do que se imaginava até aqui na organização criminosa liderada pelo fiscal Artur Gomes da Silva Neto. O MP diz que ela é o elo com a ampla rede de fiscais corruptos da Fazenda - do Fisco estadual - alvos da nova operação desta quinta (26). Dos 20 dos 22 alvos de mandados de busca da 'Operação Fisco Paralelo' são ligados a esses fiscais corruptos. Por esse motivo, tantas Delegacias Regionais Tributárias são alvos do MP. Artur Gomes da Silva Neto é exonerado do cargo de auditor fiscal Reprodução Os crimes investigados são, dentro outros, organização criminosa, corrupção ativa e corrupção passiva. Não há cálculo fechado ainda do prejuízo estimado. Mas é imenso, na conta dos promotores paulistas. O esquema é maior do que se vislumbrou lá na Ícaro, onde se falava em desvios na casa de R$ 1 bilhão. CGE e MP de São Paulo fazem reunião sobre o caso Ultrafarma

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/03/26/funcionario-da-fazenda-de-sp-tinha-manual-de-ocultacao-de-bens-apreendido-pelo-mp-em-operacao-contra-fraude-no-icms.ghtml


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