Inteligência artificial tem 'sede' e pode provocar falta de água? Entenda o impacto
10/10/2026
(Foto: Reprodução) Até onde vai a sede da inteligência artificial? Pesquisas revelam impactos sobre a água
Edição / Rodrigo Peronti / arquivo/Canva
Uma pergunta feita à inteligência artificial, uma pesquisa na internet ou um arquivo armazenado na nuvem dependem de uma infraestrutura física que também utiliza recursos naturais. Por trás desses serviços estão os data centers, instalações que abrigam servidores e equipamentos responsáveis pelo processamento e armazenamento de informações.
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Além da eletricidade, essas estruturas podem consumir água para controlar a temperatura dos equipamentos. Com a expansão da inteligência artificial (IA), pesquisadores passaram a investigar os efeitos dessa demanda sobre os recursos hídricos, especialmente em regiões sujeitas à escassez de água.
Um estudo publicado em 2026 na revista científica Cambridge Prisms: Water estimou em 16,1 bilhões de litros por ano a pegada hídrica (volume total de água doce utilizada direta e indiretamente em uma atividade ou processo) da infraestrutura de inteligência artificial analisada na região metropolitana de São Paulo. O cálculo considera tanto a água utilizada diretamente nos sistemas de refrigeração quanto aquela associada à geração da eletricidade.
O resultado foi obtido por meio de modelagem científica, com base em dados sobre infraestrutura, consumo energético e características dos sistemas hídricos. Portanto, não representa uma medição direta da água consumida pelas instalações.
Para Diego Mota Siqueira, chefe do Serviço de Supercomputação (SESUP), da Coordenação de Infraestrutura de Dados e Supercomputação (COIDS), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), compreender esse impacto exige considerar as características de cada empreendimento.
"Essa resposta é muito relativa. De que tamanho de data center estamos falando? E de que tamanho de cidade? Isso vai determinar diretamente o impacto."
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Por que os data centers precisam de água?
Os servidores produzem calor durante o funcionamento. Para evitar o superaquecimento, as instalações utilizam sistemas de refrigeração que podem empregar água, ar ou outras tecnologias.
"Um data center utiliza água principalmente para resfriar os equipamentos, que geram muito calor durante a operação. Quanto maior o data center, mais calor ele vai gerar e mais água vai consumir", explica Siqueira.
Equipamentos que resfriam a água são conectados a um prédio do data center da OpenAI durante uma visita às instalações em Abilene, no Texas, Estados Unidos.
Shelby Tauber / Reuters
Nos sistemas que utilizam torres de resfriamento, parte da água evapora para dissipar o calor. É necessário repor esse volume, além de compensar outras perdas do sistema.
Entretanto, nem todas as instalações utilizam a mesma tecnologia.
"Importante: nem todo data center precisa consumir muita água. Sistemas com refrigeração a ar ou condensação a ar podem ter consumo de água muito baixo."
A localização também interfere nessa demanda. Em regiões mais quentes, determinados sistemas precisam trabalhar com maior intensidade para manter a temperatura adequada dos equipamentos.
"Em regiões quentes, os equipamentos precisam dissipar mais calor e os sistemas de refrigeração trabalham por mais tempo e com maior carga. Se o projeto utiliza torres de resfriamento, isso pode significar maior evaporação e, portanto, maior consumo de água."
Segundo o especialista, a situação exige atenção adicional em locais com histórico de estiagens.
"Em regiões sujeitas a seca ou escassez hídrica, o problema é ainda mais relevante: um data center pode competir pelo mesmo recurso utilizado pela população, agricultura e indústria."
O consumo de água vai além dos sistemas de refrigeração
A pegada hídrica dos data centers não se limita à água utilizada dentro das instalações. A produção da eletricidade necessária para manter os equipamentos funcionando também pode envolver consumo de água.
Usina Hidrelétrica de Três Marias
Cemig
O estudo publicado na Cambridge Prisms: Water, assinado pelo pesquisador Guangda Liang, da Queen Margaret University, no Reino Unido, aponta que mais de 46% da pegada hídrica estimada para a infraestrutura analisada em São Paulo está associada indiretamente à geração hidrelétrica.
Essa parcela considera a evaporação da água nos reservatórios vinculada à produção de eletricidade, segundo os critérios adotados pelo pesquisador.
Outra pesquisa, publicada em novembro de 2025 na Nature Sustainability, projetou que a operação de servidores de inteligência artificial nos Estados Unidos poderá apresentar uma pegada hídrica anual entre 731 bilhões e 1,125 trilhão de litros, conforme os cenários de expansão analisados para o período de 2024 a 2030.
Os pesquisadores também identificaram que, no cenário de referência, 71% da pegada hídrica calculada estava relacionada ao uso indireto de água, enquanto 29% correspondia ao uso direto.
Os resultados reforçam a importância de considerar não apenas a refrigeração, mas também a origem da eletricidade. As proporções, porém, variam entre países e instalações e não podem ser aplicadas indistintamente a todos os data centers.
Mais inteligência artificial significa necessariamente mais água?
O avanço da inteligência artificial exige maior capacidade de processamento, mas isso não significa que o consumo de água aumente na mesma proporção.
"Com o crescimento da demanda de uso por IA, a questão hídrica pode se tornar cada vez mais relevante para data centers, mas isso não significa que todo crescimento computacional implique necessariamente aumento proporcional do consumo de água", afirma Siqueira.
Segundo ele, os avanços tecnológicos permitem melhorar a eficiência dos sistemas.
"O ponto de destaque aqui é a combinação de densidade computacional + calor + tecnologia de refrigeração + localização. Dessa combinação resulta operações mais ou menos eficientes em termos de uso de recursos."
Projeto do data center em Campinas (SP)
Terranova
Uma das alternativas é o liquid cooling, sistema que utiliza líquidos para retirar o calor diretamente dos componentes eletrônicos.
"A indústria está migrando para sistemas mais eficientes, principalmente liquid cooling. O último supercomputador adquirido pelo INPE em 2025 já utiliza essa tecnologia."
O especialista explica que o líquido pode circular em circuito fechado, reduzindo a necessidade de reposição. Isso, entretanto, não significa que qualquer sistema de refrigeração líquida elimine o consumo de água.
"Já é possível operar data centers muito grandes com consumo de água baixo, inclusive estruturas de HPC e IA. O desafio é que reduzir água normalmente exige alguma combinação de maior investimento, maior consumo elétrico ou maior complexidade operacional."
Entre as alternativas disponíveis estão sistemas de refrigeração a ar, equipamentos com condensação a ar, resfriamento por condições climáticas externas e tecnologias de imersão dos componentes em líquidos especiais.
Cada solução apresenta vantagens e limitações. Algumas reduzem o consumo direto de água, mas podem aumentar a demanda de eletricidade, transferindo parte da pegada hídrica para o setor energético.
"Cada caso é um caso, cada projeto tem suas especificidades e cada data center a sua característica de uso. Assim, não temos como definir uma única solução como a melhor."
Falta de transparência dificulta avaliar os impactos
Além do volume consumido, pesquisadores apontam dificuldades para obter informações sobre o uso de água nas instalações.
Em um artigo publicado em 2026 na revista AGU Advances, Ana Pinheiro Privette, Ana Barros e Ximing Cai, da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos, destacam que muitas empresas divulgam apenas dados parciais ou agregados sobre o consumo hídrico.
Seca e mudanças climáticas fazem 2 dos maiores reservatórios de água dos EUA atingirem o nível mais baixo da história
Jornal Nacional/ Reprodução
Segundo os autores, essa falta de informações detalhadas dificulta o planejamento de cidades e regiões que recebem grandes empreendimentos, especialmente em locais onde já existe pressão sobre os mananciais.
Outro trabalho, publicado em janeiro de 2026 na PLOS Water, pelo pesquisador Sameer H. Shah, da Universidade de Washington, reuniu preocupações de comunidades norte-americanas relacionadas à instalação e à operação de data centers.
Entre elas estão os riscos de uso insustentável da água, possíveis aumentos nos custos dos serviços de abastecimento e dificuldades de acesso a informações sobre os empreendimentos.
O trabalho analisa documentos públicos, reportagens e processos judiciais. Não demonstra que todos os impactos apontados pelas comunidades tenham efetivamente ocorrido.
Como evitar que os data centers comprometam o abastecimento?
Para Siqueira, a disponibilidade de água deve ser considerada desde a escolha do local onde um data center será construído.
"No Brasil, em relação à disponibilidade hídrica, antes de instalar um grande data center eu trataria a disponibilidade hídrica como um requisito de localização."
A avaliação, segundo ele, precisa considerar não apenas o abastecimento em condições normais, mas também a disponibilidade do recurso em períodos críticos.
"A pergunta não deveria ser simplesmente 'há água suficiente?', mas: 'Há água suficiente para o data center, inclusive nos períodos críticos de seca, sem comprometer os usos prioritários e os demais usuários das reservas hídricas?'"
Primeiro Data Center do Sul de Minas está localizado em Varginha.
Crédito: Divulgação
O especialista também lembra que os data centers desempenham funções essenciais para diferentes setores da sociedade, como saúde, transportes, telecomunicações, serviços financeiros e meteorologia.
No INPE, por exemplo, a infraestrutura computacional permite realizar atividades de previsão do tempo e monitoramento ambiental.
"No caso do INPE, nosso data center fornece recursos para serviços meteorológicos diários, que salvam vidas, emitem alertas de eventos climáticos severos, monitoramos queimadas, enchentes, etc. Como dimensionar o valor disso?"
Para o especialista, conciliar a demanda computacional com a disponibilidade dos recursos naturais é uma questão de planejamento.
"A relação entre demanda e disponibilidade hídrica, pode determinar o sucesso ou fracasso do empreendimento para o médio ou longo prazo de um data center dependente deste recurso tão importante que é a água."
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