Mizael Bispo, condenado por matar Mércia Nakashima, lança livro e volta a negar assassinato após 16 anos: 'Não foram atrás do autor do crime'
25/05/2026
(Foto: Reprodução) Mizael Bispo lança livro onde nega ter matado ex
Condenado por matar a advogada Mércia Nakashima, o ex-policial militar e ex-advogado Mizael Bispo de Souza, de 56 anos, lançou recentemente um livro em que volta a negar ter participado do assassinato da ex-namorada na Grande São Paulo. O caso completou 16 anos no último sábado (23).
"'Não foram atrás do autor do crime", escreveu Mizael num dos trechos.
Mércia desapareceu em 23 de maio de 2010, após sair da casa da avó, em Guarulhos. O carro foi encontrado quase três semanas depois, em 10 de junho, submerso em uma represa em Nazaré Paulista, interior do estado. O corpo foi localizado no dia seguinte, 11 de junho. A vítima tinha 28 anos.
Segundo a Polícia Civil, ela foi atraída pelo ex-namorado, baleada e morreu afogada após o veículo ser lançado na represa. O motivo do crime seria o fato de Mizael não aceitar o fim do relacionamento. Uma alga específica no sapato de Mizael, encontrada na represa, foi determinante para colocá-lo na cena do crime, segundo a investigação.
Mércia Nakashima foi morta pelo ex-namorado Mizael Bispo, segundo o MP
Reprodução/Arquivo pessoal/Juliana Cardilli/g1
Preso em 2012, quando se entregou à polícia após ficar foragido da Justiça, Mizael foi julgado e condenado em 2013 a mais de 20 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado _na época ainda não existia o crime de feminicídio, criado em 2015 e que atualmente pode dar uma pena de até 40 anos.
A pena de Mizael aumentou para mais de 22 anos em 2017. Desde 2023, ele está em liberdade no regime aberto em cumprimento ao restante da pena.
O vigia Evandro Bezerra da Silva foi preso em 2010 como cúmplice de Mizael no crime. Foi solto pela Justiça e depois detido novamente, em 2012, quando chegou a confessar o crime, mas voltou atrás e negou. Mesmo assim, no ano seguinte, foi condenado a 17 anos de prisão. Em 2022, também foi solto para cumprir o restante da pena fora das grades.
Mizael é condenado a 20 anos pela morte de Mércia Nakashima
Rede Globo
Livro e versão do condenado
Mesmo após a condenação, Mizael mantém a versão de inocência, retomada agora no livro.
A obra “Na Cova dos Leões – Uma história de luta, sofrimento, dor e injustiça! Nada está perdido” tem cerca de 140 páginas, foi escrita durante a prisão e é vendida apenas em formato digital, por R$ 16 na plataforma da Amazon na internet.
“Olá, pessoal. Estou aqui para lhe dar a notícia de que o tão sonhado livro Mizael Bispo na Cova dos Leões, que eu escrevi no cárcere por mais de uma década", diz ele num vídeo que o g1 teve acesso. "É uma história real e sem ficção. Eu tenho certeza que vocês irão adorar dessa história sem manipulação e sem cortes. Muito obrigado e boa leitura.”
O advogado de Mizael Bispo, Samir Hadad, e o irmão de Mércia Nakashima, Márcio, discutem durante reconstituição
Grizar Júnior/ AE
A obra foi escrita com a ajuda de seu advogado, Samir Haddad Júnior, que falou com a equipe de reportagem sobre ela: "Esse livro foi feito por Mizael Bispo sob a minha supervisão. O título eu que sugeri, inspirado em Daniel na cova dos leões, que lá foi jogado para morrer sem prova nenhuma. É um libelo de sua defesa e sua história que o Brasil todo acompanhou em tempo real no primeiro júri ao vivo da história do pais. O caso O.J Simpson brasileiro sem nenhum exagero."
Para o g1, Mizael falou que "é um livro que não tem ficção. É um livro que fala a verdade, o que acontece nos bastidores, o que aconteceu nos bastidores, sem alisar, sem amaciar ninguém. Tem coisa aí que ninguém nem sabe".
No livro, Mizael apresenta sua versão dos fatos, mas altera nomes de personagens sob a justificativa de estar "visando eximir de possíveis crimes contra a honra, este trabalho apresentará alguns nomes fictícios".
O policial militar reformado Mizael Bispo chega para o quarto dia de julgamento, no Fórum de Guarulhos, pelo assassinato de sua ex-namorada, a advogada Mércia Nakashima, em maio de 2010.
Nelson Antoine/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Mércia é chamada de “Márcia”, enquanto o irmão da vítima, Márcio Nakashima, aparece como “Marcos”. O delegado Antônio de Olim é citado como “doutor Roolim”, e o promotor Rodrigo Merli aparece com outro nome, Alexandre Merli. Já Evandro Bezerra, apontado como comparsa no caso, é citado como “Edvan Bezerra”.
O autor também levanta suspeitas sobre outras pessoas e sugere algumas delas, que conheciam ou tiveram contato com sua ex, não teriam sido investigadas. Ele escreve: “Às vezes eu me pergunto: será que a Márcia estava relacionando-se com alguém e tal pessoa teria percebido que a mesma estava reaproximando-se de mim e preparou-lhe uma armadilha?”
Parente observa corpo de Mércia Nakashima
Arquivo/Reprodução/Paulo Toledo Piza/G1
Em outro trecho, sustenta que teria indicado outros possíveis suspeitos, que, segundo ele, não foram alvo das apurações do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP):
“Enquanto isso, o verdadeiro autor do crime estava ‘de boa’ por aí, dando risadas das trapalhadas da polícia, que, não sendo capaz de desvendar um crime, joga pra cima de alguém sem nenhuma prova."
Carro de Mércia Nakashima é encontrado em represa
Arquivo/Paulo Toledo Piza/G1
Ainda no livro, Mizael critica a condução da investigação, o Ministério Público (MP) e a imprensa. Ele afirma: “Este livro é dedicado ao público em geral e tem como objetivo esclarecer fatos não divulgados pela imprensa marrom e por aqueles que me acusaram e me julgaram”.
E sustenta que não cometeu o crime: “Nunca matei ninguém em minha vida, quiçá uma pessoa que eu tanto amei”.
Também contesta a apuração: “Para você entender que fui vítima da armação de um delegado de polícia que nunca antes, em seus mais de vinte e cinco anos de carreira, havia investigado um crime de homicídio”.
O delegado Antônio de Olim, hoje deputado estadual, foi o responsável pelas investigações do assassinato da advogada Mércia Nakashima em 2010
Kleber Tomaz /g1
Caso volta ao debate
Com o lançamento do livro, Mizael volta a público e reacende discussões sobre um dos crimes mais emblemáticos do país.
O caso Mércia Nakashima teve forte repercussão nacional e marcou o Judiciário pela ampla exposição, com cobertura intensa da imprensa e julgamento acompanhado em todo o país.
As autoridades citadas pelo g1 e ouvidas nesta reportagem aparecem no livro com nomes alterados, conforme a narrativa adotada pelo autor.
Alexandre Nardoni, Mizael Bispo de Souza, Gil Rugai, Cristian Cravinhos, Guillherme Longo e Lindenberg Alves em sala no fórum de São José
Hernane Lelis/TV Vanguarda
"Que ele publique o que quiser. Se conseguir uma editora que compre a sua ideia, é claro! Mas, como no Brasil os criminosos costumam ter bastante espaço, capaz que consiga. Que ele ao menos não reclame depois de ser eventualmente processado por eventuais calúnias e difamações. Correrá o risco de se tornar réu novamente", disse o promotor Rodrigo Merli Antunes.
"Eu acho que ele é um belo dum mentiroso, contador da Carochinha: nunca teve suspeitos presos que confessaram o crime", disse o delegado Antônio de Olim, atualmente deputado estadual. "Hoje ele entraria no feminícidio, e a pena seria maior. Se fosse hoje, ele iria apodrecer na cadeia."
A equipe de reportagem procurou Márcio Nakashima para comentar o lançamento do livro, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.
Em 2013, g1 visitou Romão Gomes e registrou presença de PMs presos, entre eles, Mizael Bispo (à direita), que usava crachá vermelho
Arquivo/Raul Zito/g1
Evandro Bezerra Silva chegou a SP neste sábado.
Mário Ângelo/AE